A Escola de Música da Dona Alice

Por Nilton Tornero

Quando eu era um jovenzinho - e isso já faz muito tempo - tive a oportunidade de ser aluno da dona Alice. Ela era uma mulata baiana, de estatura mediana, ligeiramente gorda. Devia ter uns quarenta e cinco anos. Era pessoa extremamente amável e de bom humor. Durante o tempo em que lá estudei, nunca a vi levantar a voz com quem quer que seja ou de cara fechada.

Os outros professores de música da cidade tinham um troço, verdadeiro chilique, quando alguém dizia que era ou fora aluno de D. Alice, ou mesmo quando seu nome era mencionado durante uma conversa.

Diziam que D. Alice não entendia de música, que não tinha método de ensino, que sua "escola" era uma zona total. "Lá só se desaprende", diziam.

Tentarei esclarecer isto, dando algumas características de seu trabalho.

A escola propriamente dita era um salão formado por dois cômodos contíguos de sua casa, dos quais se havia retirado a parede divisória entre os ditos cômodos. Devia ter entre 50 e 60m². Dava para a rua. Era basicamente uma escola de acordeom, que era o instrumento da moda naquela época.

D. Alice tinha muitos alunos. Para atender a essa demanda, havia no salão muitos acordeões. Mas também um piano e uns dois violinos, isto porque D. Alice ensinava esses três instrumentos e, talvez, qualquer um, caso alguém lhe pedisse.

D. Alice cobrava barato, o que explica, em parte, o seu grande número de alunos. Se o aluno pagava ou não, esse fato parecia não ter importância para a mestra, pois nunca ouvi dizer que a mesma tenha cobrado alguém ou mandado alguém embora por falta de pagamento.

Ali, naquela escola, alunos e mestra viviam na maior harmonia. Só a música importava.

Na escola de D. Alice ninguém tinha horário: cada aluno comparecia à aula na hora que bem
entendesse; era só aparecer para ser bem acolhido. Para que isto ocorresse harmonicamente, a escola funcionava ininterruptamente desde às 8h da manhã até de noitão, quando o último aluno resolvesse ir embora. Enquanto que com os outros professores o aluno, além de ter hora certa para suas aulas - em geral uma vez por semana -, na escola de D. Alice isso era diferente. Ficava a critério do mesmo definir quando iria às aulas. Poderia ir uma vez por semana ou todos os dias, caso julgasse necessário. Também poderia ficar dias sem ir. Além de definir o horário e os dias que compareceria, a duração da aula também ficava a critério do aluno. Podia ficar praticando, por exemplo, quinze minutos ou então uma manhã inteira. Para D.Alice, isso não constituía nenhum problema. Acredito mesmo que se alguém quisesse ficar o dia inteiro, D. Alice até lhe diria:

-Nesse caso vou providenciar um almoço para você. Ensaiar com fome não dá pé.

E todos esses horários, que podiam ser modificados diariamente, não necessitavam de modo algum de avisos prévios, telefonemas, ou coisas do gênero. Nessa escola, antes mesmo de se falar em desburocratização, isto ali já era praticado em toda a extensão da palavra.

Mas, como eram as aulas na escola de D. Alice? Muito simples: cada aluno chegava (no horário e dia que bem entendesse), pegava um acordeom, sentava-se, abria seu caderno de música e começava a ensaiar. É fácil entender que com tal dinâmica frequentemente havia dez, quinze ou até mais alunos na sala. Cada um pegava seu instrumento, como dissemos, e começava a ensaiar. Cada um tocando uma música diferente, um aluno sentado perto do outro. Às vezes um piano e/ou um violino se juntavam para produzir essa estranha sinfonia. Literalmente, era uma "zona", cada um tocando uma coisa. D. Alice andava pelo salão - estava sempre presente e disponível - ora atendendo um chamado, ora
parando ao lado de um aluno para ouvir o que ele tocava e eventualmente dar-lhe alguma instrução. O aluno podia levar alguma partitura mas, com frequência, as músicas que tocávamos era ela quem as transcrevia: incluía desde os clássicos da música popular até aquelas do momento que faziam sucesso no rádio. O forte de D.Alice era seu ouvido absoluto: bastava ouvir uma música uma vez e já era capaz de transcrevê-la na pauta. A maioria das músicas que fazia sucesso no rádio ela as sabia de cor. Aliás, um rádio sempre
ligado também fazia parte dessa sinfonia (ou seria mais correto dizer cacofonia?). Era comum um aluno que estava praticando ouvir uma música ainda pouco conhecida, deixar rapidamente o seu instrumento na cadeira e sair correndo, às vezes até aos tropeções, até a mestra:

-D. Alice, dá prá senhora tirar essa música que está tocando?

A mestra não se fazia de rogada. Imediatamente sentava-se em uma mesinha especial perto do rádio - mesa que só ela usava, para esse fim - pegava uma pauta e ia transcrevendo a música enquanto a ouvia. Às vezes não fora possível ouvir a música inteira. Então ela dizia:

-Fique alerta. A próxima vez que tocar essa música você me chama e eu a completo. Enquanto isso vá ensaiando esta parte.

Certa tarde ela fez uma visita à minha casa. Minha mãe lhe falou sobre uma música, mas D. Alice não a conhecia. No entanto, perguntou se minha mãe podia cantarolá-la. Minha mãe podia e D. Alice pegou a pauta e, conforme minha mãe cantarolava, ela ia anotando. Depois que ela foi embora fui tocar a música no acordeom e notei que um trecho estava desafinado. Descobri, então, que, ao cantarolar a música, era minha mãe quem desafinara. D. Alice apenas transcreveu o que ouviu...

Enquanto que com os outros professores os alunos ficavam grande parte do tempo  praticando escalas, arpejos, exercícios para isso e para aquilo, o sistema de ensino de D. Alice se baseava em músicas desde a primeira aula. Mesmo quem entrasse sem saber nada era possível em uma semana, por exemplo, se praticasse devidamente, já estar tocando - não como Mário Zan, o acordeonista-modelo daqueles anos - mas, à sua maneira, uma singela valsinha. E isso animava muito os alunos.

D. Alice tinha três métodos elementares e ensebados: um para acordeom, outro para piano e um terceiro para violino. De vez em quando ela ia até um aluno, abria o método correspondente em uma página qualquer e dizia, cortesmente:

-Olhe, Fulano, pratique hoje um pouco esse exercício. - Depois falava mais alto: - Dizem que não ensino por método? É claro que ensino! Aqui está o método!

Essas lembranças da Escola de Música de D. Alice me vieram hoje à memória quando eu refletia, mais uma vez, sobre o momento mágico que estamos passando nesse processo de ascensão de nós mesmos, da Terra e da humanidade.

Pensava como seria possível nos concentrarmos no Aqui e Agora em meio ao aparente caos em que vivemos, onde, frequentemente, cada um diz e faz uma coisa que nem sempre está de acordo com aquilo que pensamos e que, de uma maneira ou outra, nos incomoda. A escola de D. Alice me mostrou uma coisa muito interessante: durante aquelas aulas, cada um tocava, em seu instrumento, uma música diferente. Uns a tocavam corretamente;
outros engasgavam a cada compasso. Uns tinham mais habilidades,estavam mais avançados; outros estavam no início ou estavam ensaiando uma música nova e isto trazia dificuldades. Mas o fato é que ninguém, absolutamente ninguém, se incomodava com o pretenso caos que ocorria naquela sala. Um aluno não incomodava o outro, por mais desafinado que estivesse. Isto porque cada um estava interiorizado, vivendo seu aqui e agora e tudo fluía as mil maravilhas. Não passava pela cabeça de ninguém chamar a atenção do seu vizinho porque ele estava desafinando; nem a professora chamava a atenção de alguém; apenas orientava. Em suma, cada um estava na sua, tocando a sua música e a harmonia existia no meio da desordem, por mais paradoxal que isto possa parecer.

Faço, pois, o paralelo:
estamos todos a caminho da ascensão. Estamos todos misturados em um imenso salão que é a Terra, cada um com suas ideias e suas experiências que, quase sempre, são diferentes de pessoa para pessoa. É como se cada um tocasse a sua música, num salão onde todos fazem o mesmo. Daí o aparente caos e a tendência em "ensinar" aquele aluno que desafina, ou aquele mais novo no seu instrumento. O fato é que todos ascensionarão um dia, se não for nesta vida, será em outra. Cada um tem que ensaiar, descobrir o que é bom para si para progredir em seu instrumento e isso só depende da prática de cada um. Métodos podem ajudar mas, se a pessoa não pratica dentro de si, nada feito.

Pensando e agindo assim, sem se importar se o seu vizinho é "espiritualizado" ou não, podemos viver muito bem no meio do aparente caos. Basta deixar esse exterior, essa confusão de lado, não consentindo em sermos dirigidos por ela, e entrarmos em nosso santuário interior, no nosso Aqui e Agora.

D. Alice não desanimava ninguém. Lembro-me de uma vez ou outra ter encontrado em sua escola um estudante de acordeom que, como se diz, "não saía do lugar".
A música que praticava era muito simples, porém o rapaz era incapaz de tocar uma sequencia correta de notas. D. Alice costumava ir até ele, ouvia com atenção, captava seus esforços, e então dizia:

-Você está indo muito bem. Daqui a uns três ou quatro meses estará tocando essa música
de uma maneira maravilhosa!

O rapaz sorria satisfeito e caprichava ainda mais nas suas desafinações.

É isso aí. Todo mundo chega lá. Se não for hoje, vai ser amanhã. Se não for amanhã, será o
mês que vem. Mas que chega, chega.

O método pedagógico de D.Alice pode abrigar outros múltiplos ensinamentos que não os
abordarei, por não ser o objetivo destas linhas.

D. Alice, estando onde estiver, aceite minha gratidão eterna por tudo que me ensinou, por
essa lição que aqui e agora transcrevo e que veio em tão boa hora.
Tenho certeza que a senhora está ao meu lado, agora, me inspirando, enquanto escrevo. Gratidão!



11.03.2017